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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Inês Pedrosa lamenta que fascínio por Fernando Pessoa não seja melhor aproveitado

Faz esta terça-feira 75 anos que morreu Fernando Pessoa. Na Última Hora o jornalista Artur Carvalho conversou com Inês Pedrosa, directora da casa que é dele e que lamenta que o fascínio pela obra e pelo homem não seja mais bem aproveitado.


Fernando António Nogueira Pessoa, um dos maiores poetas de Língua Portuguesa de sempre, faleceu em 1935, em Lisboa, com 47 anos.
Aos sete anos foi viver com a mãe para Durban, na África do Sul, onde fez os estudos, o que lhe proporcionou dominar a Língua Inglesa, na qual escreveu três dos quatro livros que publicou em vida. Regressou a Portugal com 17 anos.
Além de tradutor e correspondente comercial, foi empresário, editor, crítico literário, tradutor, jornalista, inventor e publicitário, ao mesmo tempo que produzia a sua obra literária, como por exemplo: «Mensagem» e «Livro do Desassossego».

domingo, 1 de junho de 2008

Fragmento 79





"Leve, como uma coisa que começasse, a maresia da brisa pairou sobre o Tejo e espalhou-se sujamente pelos princípios da Baixa. Nauseava frescamente, num torpor frio de mar morto. Senti a vida no estômago, e o olfacto tornou-se-me uma coisa por detrás dos olhos. Altas, pousavam em nada nuvens ralas, rolos, num cinzento a desmoronar-se para branco falso. A atmosfera era de uma ameaça de céu cobarde, como a de uma trovoada inaudível, feita de ar somente.
Havia estagnação no próprio voo das gaivotas; pareciam coisas mais leves que o ar, deixadas nele por alguém. Nada abafava. A tarde caía num desassossego nosso; o ar refrescava intermitentemente.
Pobres das esperanças que tenho tido, saídas da vida que tenho tido de ter! São como esta hora e este ar, névoas sem névoa, alinhavos rotos de tormenta falsa. Tenho vontade de gritar, para acabar com a paisagem e a meditação. Mas há maresia no meu propósito, e a baixa-mar em mim deixou descoberto o negrume lodoso que está ali fora e não vejo senão pelo cheiro.
Tanta inconsequência em querer bastar-me! Tanta consciência sarcástica das sensações supostas! Tanto enredo da alma com as sensações, dos pensamentos com o ar e o rio, para dizer que me dói a vida no olfacto e na consciência, para não saber dizer, como na frase simples e ampla do livro de Job, "Minha alma está cansada de minha vida!"