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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Obra de Fernando Pessoa ainda é um desassossego

Ana Vitória /JN

Fernando Pessoa morreu há 75 anos, mas a obra continua a suscitar interesse, sobretudo no estrangeiro. Em França, o "Livro do desassossego" já vendeu 185.000 cópias e a palavra "intranquilité" ("desassossego") vai entrar no dicionário da Academia da Língua Francesa.
"Os portugueses cansam-se facilmente de tudo", sintetizou, a propósito do relativo "abandono" a que o escritor tem sido votado, o ensaísta Eduardo Lourenço, em conversa com o JN à margem do II Congresso Internacional Fernando Pessoa realizado na passada semana.

"O caso de Fernando Pessoa é o caso paradigmático de alguém por quem os portugueses dizem sentir grande apreço, mas do qual, no fim, nem sequer se apercebem da dimensão internacional", disse, por seu turno, Inês Pedrosa, directora da Casa Fernando Pessoa, que, desde há dois anos, tem vindo a organizar aqueles encontros pessoanos.

A obra e o pensamento do autor de "Mensagem" - que morreu aos 47 anos - continuam a influenciar artistas contemporâneos de diversas áreas. Daí que não seja estranho que uma obra como "O livro do desassossego", publicada pela primeira vez há 120 anos, continue com honras de "best seller" em países como França, Itália ou Brasil.
A paixão pela obra de Fernando Pessoa assenta em múltiplas e variadas interpretações. Tome-se como exemplo o trabalho do músico, compositor e ensaísta brasileiro José Miguel Wisnik. Defende este investigador que Fernando Pessoa entrou no chamado Tropicalismo e entrou no movimento da Bossa Nova através do professor Agostinho da Silva, que, por sua vez, foi levado para a Bahia pelo próprio Eduardo Lourenço.
Para José Miguel Wisnik, "Fernando Pessoa levou o mito do V Império a uma transfiguração que tinha a ver com um novo futuro, uma ordem mundial futura em que a língua portuguesa voltaria a ser predominante". E o investigador sublinhou ainda o facto de Fernando Pessoa "se ter popularizado no Brasil através da canção, (muitos compositores brasileiros musicaram poemas seus) demonstrando, assim, como a mais "alta" cultura se misturou com a cultura "popular", a enriqueceu e criou a especificidade da cultura brasileira".
"Esta é uma visão curiosa que acaba por ser muito estimulante para as pessoas que têm aquele medo de entrar num mundo que é aparentemente de chave fechada", defendeu Inês Pedrosa.

"Pessoa congrega pessoas muito diferentes, às vezes, até com posturas antagónicas. É engraçado como, sendo ele tão tímido e ensimesmado, suscita paixões tão ardentes de compreensão exclusiva e suscita heterónimos tão vivos e diferentes quanto os que ele criou", sublinhou.

O fascínio tem uma explicação. Pessoa não foi só poeta ou escritor de prosa, foi também ensaísta político e teórico sobre religião e estética filosófica. Um debate em torno de Pessoa acaba, assim, por ser um debate em torno do século XX em Portugal e não só.
"Pessoa foi o sonhador de todos os sonhos, mesmo os mais improváveis", lembrou Eduardo Lourenço, que, no âmbito do congresso, foi distinguido, conjuntamente com a especialsita em assuntos pessoanos Maria Aliete Galhoz, com a "Ordem do desassossego".

A distinção, criada pela Casa Fernando Pessoa, visa "honrar aqueles que honram Pessoa e honram Portugal, sabem amá-lo e têm uma atitude de desprendimento e de curiosidade genuína como a que caracterizou Pessoa".
O filósofo, de 87 anos,sublinhou a importância da obra do poeta dos heterónimos, que definiu como "o grande poeta da incondição humana", e recordou que foi em 1942/43 que o encontrou, comentando: "Encontrarmos alguém que já nos viveu é qualquer coisa de paradoxal."

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Casa Fernando Pessoa coberta com ode de Ricardo Reis

A Casa Fernando Pessoa (CFP), em Lisboa, inaugura hoje a exposição Casa-Poema, que cobre com variações de uma ode de Ricardo Reis geradas informaticamente a fachada e as paredes da última casa onde o poeta viveu.
“A ideia desta exposição nasceu de uma conversa com o Richard Zenith (tradutor da obra de Fernando Pessoa para inglês). Estávamos a falar sobre o infinito dos textos de Pessoa, o facto de ele ter deixado manuscritos com várias versões, e o Richard disse que há, por exemplo, uma ode de Ricardo Reis que tem tantas variantes que daria inúmeros poemas e que seria interessante criar um programa matemático, enfiar lá o poema com as variantes, ver quantos poemas nasciam daquele único poema e fazer uma exposição com isso”, disse hoje à Lusa a escritora Inês Pedrosa, directora da CFP.
A intenção era - explicou - “dar a ver a multiplicidade de textos que um só texto de Pessoa contém, ou seja, de certa maneira, o facto de que Pessoa pode continuar a escrever poemas mesmo já não existindo, uma vez que os seus poemas têm outros poemas dentro”.
Depois de encontrarem um especialista informático que fizesse o tal programa, o resultado foram cerca de 30.000 poemas (28.224, mais precisamente) e a noção de que “a exposição total seria também ela impossível”.
“A ideia era transformar toda a casa nesse poema e pareceu-me que era bonito começar a leitura da casa pela fachada”, observou Inês Pedrosa.
A vermelho, preto ou cinzento, esta é uma das variantes da ode de Ricardo Reis que pode ser lida pelos visitantes da Casa Fernando Pessoa: “Pesa a sentença atroz do algoz ignoto/ Em cada cerviz néscia. É entrudo e riem,/ Felizes, porque neles pensa e sente/ A vida, que não eles./ De rosas, inda que de falsas, teçam/ Capelas veras. Breve e vão é o tempo/ Que lhes é dado, e por misericórdia/ Breve nem vão sentido./ Se a ciência é vida, sábio é só o néscio./ Quão pouco diferença a mente interna/ Do homem da dos brutos! Sus! Deixai/ Brincar os moribundos!”.
A Casa-Poema estará patente pelo menos até Dezembro, de segunda-feira a sábado, no número 16 da Rua Coelho da Rocha, cuja fachada estará a partir de hoje à noite iluminada.
Lusa/AO Online

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Congresso em Novembro encerra comemorações do nascimento do escritor


As comemorações dos 120 anos do nascimento do autor do «Livro do Desassossego» encerram com o I Congresso Internacional Fernando Pessoa, no Auditório do Turismo de Lisboa, Rua do Arsenal Nº 15, entre os dias 25 e 28 de Novembro

A singularidade deste Congresso, promovido pela Casa Fernando Pessoa, “é a de criar um diálogo entre os especialistas da obra de Pessoa e os criadores que nela se inspiram – poetas, pintores, cineastas”.

O professor Eduardo Lourenço proferirá a conferência inaugural, às 10h30 de dia 25 de Novembro.

Os segredos revelados pelas anotações marginais de Pessoa à sua própria biblioteca, os pontos de contacto entre a obra de Pessoa e a de outros génios da literatura (como o Padre António Vieira, Shakespeare, Joyce ou Yeats), as relações entre Pessoa e a psicanálise ou as suas ligações à astrologia serão outros temas abordados neste Congresso.

Entre os muitos congressistas portugueses e estrangeiros que se deslocam para este encontro, destacam-se as presenças de Antonio Cicero, Antonio Saéz Delgado, Anna Klobucka, Arnaldo Saraiva, Eucanaã Ferraz, Fernando Cabral Martins, Fernando J.B. Martinho, Fernando Pinto do Amaral, Gastão Cruz, Ivo Castro, Jerónimo Pizarro, João Botelho, José Blanco, José Gil, Júlio Pomar, Ken Krabbennhoft, Leyla Perrone-Moisés, Manuela Nogueira, Maria Lúcia Dal Farra, Nuno Júdice, Paulo Cardoso, Patrick Quillier, Richard Zenith, Robert Bréchon e Teresa Rita Lopes.

O Congresso incluirá ainda um espectáculo de Camané, composto unicamente por fados com poemas de Pessoa, e uma versão teatral de «A Carta da Corcunda ao Serralheiro», de Fernando Pessoa, numa interpretação de Ângela Pinto.