domingo, 18 de janeiro de 2009

Casa Fernando Pessoa inaugura hoje mostra sobre heterónimo

A Casa Fernando Pessoa vai inaugurar esta quinta-feira, pelas 18:30, uma exposição de fotografias da autoria do ilustrador e fotógrafo Jorge Colombo sobre o universo de Álvaro de Campos, no âmbito de um projecto que prevê abordar, ao longo deste ano, os três heterónimos mais importantes do poeta português.
«Os heterónimos eram, obviamente, ficções, mas as nossas vidas, amores e afazeres também o são, em última análise e até sem análise, quando defrontam o grande nivelador que é a morte», escreveu Richard Zenith, em prefácio à «Poesia dos Outros Eus», de Fernando Pessoa. «Propomo-nos dar corpo a estas ficções, mais amplas do que qualquer existência», indicou a Casa Fernando Pessoa (CFP), em comunicado.
A exposição de Colombo, que nasceu do desafio que lhe foi feito pela CFP, segue a «Ode Triunfal» como guião inicial e deixa-se depois «contaminar» pelo espírito de «estrangeiro aqui, como em toda a parte» do Álvaro de Campos posterior. Nas suas fotografias, Jorge Colombo, que reside há 20 anos nos EUA, tentou «captar os ângulos da cidade que tocariam o poeta-engenheiro naval caso ele andasse por Lisboa neste início do século XXI».
A partir de hoje, o quarto de Fernando Pessoa terá também sinais da presença de Álvaro de Campos, que «ocupará» a CFP até Abril. Paralelamente, voltará a ser exibido «Ode Marítima», um conjunto de 16 desenhos de Júlio Pomar, feitos a lápis de cera e pastel de óleo, que integra a colecção permanente da Casa Fernando Pessoa.
De Maio a Agosto, a CFP será a Casa Alberto Caeiro e, entre Setembro e Dezembro, a Casa Ricardo Reis.

MASCULINE - Paulo Ribeiro



O trabalho de Paulo Ribeiro pauta-se sempre por um olhar intuitivo que não se desliga de uma certa ironia acerca das temáticas subjacentes aos seus espectáculos.
Quatro homens protagonizam Masculine, uma peça intensa, quase febril, capaz de levar o público ao riso ou às lágrimas e que gira à volta da "pessoa" de Fernando Pessoa.
As palavras do poeta ecoam ao longo desta criação, ao sabor de uma história bem contada, em que a palavra é disputada pelos intérpretes que procuram entre os seus episódios de vida aqueles que se cruzam com o imaginário pessoano.
Um turbilhão de expressões que conduzem o público por uma montanha russa, apreendida por todos os sentidos e pautada pela beleza dos momentos e pela energia que a peça transpira.
Para ver no Teatro das Figuras, em Faro, dia 14 de Março.

A Casa Álvaro de Campos

Em 2009, a Casa Fernando Pessoa transformar-se-á na Casa Álvaro de Campos (de Janeiro a Abril), na Casa Alberto Caeiro (de Maio a Agosto) e na Casa Ricardo Reis (de Setembro a Dezembro).
Homenagearemos cada um destes heterónimos de Fernando Pessoa com uma série de exposições e eventos em torno das suas obras e personalidades.
"Os heterónimos eram obviamente ficções, mas as nossas vidas, amores e afazeres também o são, em última análise e até sem análise, quando defrontam o grande nivelador que é a morte", escreveu Richard Zenith, em prefácio à "Poesia dos Outros Eus" de Fernando Pessoa (edição Assírio & Alvim).
Propomo-nos dar corpo a estas ficções mais amplas do que qualquer existência.
Venha descobrir a Casa Álvaro de Campos, a partir de Janeiro, até Abril...
14.01.2009

Sobrinhos de Fernando Pessoa enviam carta a amigos a esclarecer "calúnias


Familiares acusam investigadores de má-fé



14.01.2009 - 09h28 Isabel Coutinho
Maria Manuela Nogueira e Luís Rosa Dias, sobrinhos de Fernando Pessoa, enviaram a familiares e amigos através de e-mail uma carta intitulada “Esclarecimento sobre as calúnias à família de Fernando Pessoa”. Nesta chamam “arrivistas” a vários investigadores pessoanos e afirmam que no contrato para a compra dos livros de Fernando Pessoa que a família fez com a Câmara Municipal de Lisboa (CML), nos anos 80, não existe a palavra “biblioteca” nem qualquer referência a revistas.“Em finais de 1988 a CML comprou à família dois lotes de livros que o poeta deixara em duas estantes. No contrato que a família conserva diz: ‘uma estante com livros encadernados (327) e outra com 777 livros’”, escrevem. Acrescentam ainda que a família “vendeu o que foi objecto de um contrato e não tudo que, na altura, a irmã do poeta pudesse possuir relativo ao irmão”. Excertos desta carta foram ontem divulgados pela agência Lusa e o blogue anónimo (http://umfernandopessoa. blogspot.com/), que teve acesso a ela, colocou-a on-line. O PÚBLICO contactou Manuela Nogueira, que assegurou que a carta é verdadeira. Na mesma carta, referem-se ao leilão do espólio de Pessoa (13 de Novembro) e que a CML tentou inviabilizar com uma providência cautelar por causa da ida a leilão da capa de As Doutrinas Anarquistas, livro que tinha sido vendido à Casa Fernando Pessoa. Escrevem que “teria bastado um contacto telefónico feito pela câmara ou directora da Casa Fernando Pessoa, que estava bem informada do assunto, para que a dita capa fosse imediatamente retirada e não entrasse no leilão. O caso seria logo aclarado. Quiseram fazer chicana, sabotar o leilão e colocar mal a família. Infelizmente, com a ajuda dos media mal informados, conseguiram.” O presidente da CML, António Costa, enviou mais tarde uma carta à família a solicitar a dita capa, Manuela Nogueira já lhe respondeu e afirma que “o presidente sabe tudo, está tudo explicado”, mas não diz o que ficou acordado entre ambos. Quanto à capa, diz que não a tem e que ainda estará em posse do leiloeiro. Na carta a circular na Internet explicam: provavelmente na altura da embalagem dos livros em casa da irmã do poeta “por negligência ou ignorância” os embaladores deixaram para trás a capa rasgada. Esta carta refere-se ainda aos investigadores pessoanos que estiveram a digitalizar o espólio que ainda se encontrava na família – Jerónimo Pizarro, Patrício Ferrari e Stephen Dix – como “arrivistas” e “abusadores da confiança da família” que “sem conhecimento dos dois contratos firmados entre a família, o Estado e a CML, propalaram, com má fé, uma história difamatória”. Pizarro, contactado pelo PÚBLICO, remeteu-nos para a resposta que os investigadores enviaram para o blogue acima referido aquando de uma anterior entrevista da sobrinha ao DN. Aí dizem-se gratos pela amabilidade com que os herdeiros os acolheram, permitindo que os documentos fossem digitalizados, mas revelam ter ficado incomodados quando viram no catálogo do leilão revistas e livros que não lhes tinham sido facultados.

Façam o favor de entrar, senhores heterónimos

Em 2009, a Casa Fernando Pessoa abre as portas aos heterónimos. Até Abril, o fotógrafo Jorge Colombo revisita Lisboa na pele de Álvaro de Campos. Por Catarina Mendonça Ferreira. Se Álvaro de Campos, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, passeasse hoje pelas ruas de Lisboa, o que mais o surpreenderia seria “o tamanho das coisas – maiores estradas, museus, estações de metro, lojas... maiores ideias”. Quem o diz é Jorge Colombo, fotógrafo, ilustrador e realizador, agora convidado pela Casa Fernando Pessoa para fazer uma exposição em torno do universo de Álvaro de Campos.
Esta será apenas a primeira de muitas outras exposições que vão acontecer ao longo do ano. Em 2009, a Casa Fernando Pessoa transformar-se-á na Casa Álvaro de Campos (de Janeiro a Abril), na Casa Alberto Caeiro (de Maio a Agosto) e na Casa Ricardo Reis (de Setembro a Dezembro). Cada um destes heterónimos de Fernando Pessoa será homenageado com uma série de exposições e eventos em torno das suas obras e personalidades.
“Desafiámos Jorge Colombo, inocente e perverso criador de imagens, leitor apaixonado do mais visual e visionário heterónimo de Pessoa, a que revisitasse a Lisboa inventada pelo poeta engenheiro – uma Lisboa anti-típica, anti-turística, a cidade arquétipo de todas as cidades passadas e futuras”, escreve Inês Pedrosa, directora da Casa Fernando Pessoa, a propósito desta exposição.
“Mais do que imaginar Álvaro de Campos ressuscitado na década zero do século XXI, Colombo ousou entrar nessa dimensão atemporal que era e é a de Campos para criar o poema visual da cidade absoluta, anónima e íntima, em imortal combustão.”
Mas se pensa que esta é apenas mais uma exposição sobre Fernando Pessoa, engana-se. Jorge Colombo fez questão que não fosse e por isso inspirou-se. “O que não quis foi espremer ainda mais a iconografia clássica – Baixa em sépia, poeta de chapéu, arcadas do Martinho –, porque o Pessoa continua demasiado vivo para caber em imagens de arquivo.” Desta viagem ao universo de Álvaro de Campos – em que a “Ode Triunfal” de 1914 foi o mote directo, e cuja excitação Colombo tentou recriar, concentrando-se em aspectos contemporâneos de indústria, comércio, urbanismo, transportes –, resultaram 52 fotografias tiradas em Lisboa e arredores nos fins de 2008. “Passei imenso tempo em centros comerciais: grande parte da vida moderna portuguesa centra-se neles, são incontornáveis.”
Para Jorge Colombo, não foi difícil escolher o heterónimo Álvaro de Campos para trabalhar. “O nosso comum expatriamento (eu nos EUA há 20 anos, ele na Escócia e etc.) facilita paralelismos. Posso manter muitos contactos e fazer muita coisa na pátria, mas do desenraizamento já ninguém me livra. E os poemas do Campos falam muito disso”, conta o fotógrafo.
A viver há 20 anos em Nova Iorque, Jorge Colombo diz que, “sob muitos ângulos, Lisboa se assemelha a tantas outras cidades, no entanto há coisas que são só nossas como o pretérito imperfeito usado como imperativo. ‘Era uma bica, se faz favor...’ A textura das pedras, as florestas de antenas, a pachorra dos bairros.” Foram estes ângulos da cidade que tocariam o poeta-engenheiro naval, caso ele andasse por Lisboa neste início do século XXI, que Jorge Colombo captou com a sua objectiva e que agora se pode ver em exposição.
A exposição de fotografia “Lisboa Revisitada” inaugura na quinta-feira pelas 18.30 na Casa Fernando Pessoa (R. Coelho da Rocha, 16 – Campo de Ourique) e fica patente até Abril. Horário: de segunda a sábado das 10.00 às 18.00. Encerra aos domingos e feriados. A entrada é livre.
terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Espólio de Fernando Pessoa classificado património nacional


A obra de Fernando Pessoa vai ser classificada de património nacional, não podendo, por isso, sair do país.

A Biblioteca Nacional já começou a nacionalizar o espólio do poeta. Para a directora da Casa Pessoa esta é uma óptima notícia. Inês Pedrosa diz que não faz sentido que a obra pessoana esteja dispersa.

Já para os herdeiros de Pessoa, a classificação dos manuscritos do poeta, como património pessoal, é uma "ridicularia política", como avançaram à Lusa.


A directora da Casa Fernando Pessoa diz que não classificar o espólio pessoano seria como se o Governo não se preocupasse com os Jerónimos.

O ministério da Cultura já tinha lembrado aos herdeiros que existem mecanismos legais para que a obra de Pessoa não possa sair do país. Hoje a biblioteca nacional começou a nacionalizar o espólio pessoano.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

mais uma biografia de Pessoa

Seu pai, de ascendência judia, foi crítico musical do Diário de Notícias e faleceu em 1893. Sua mãe, de família açoriana, casou dois anos depois com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, na África do Sul. Nesta cidade sul-africana, Fernando Pessoa fez os estudos primários e secundários e freqüentou uma escola comercial. Em agosto de 1905, regressou a Lisboa, matriculando-se no Curso Superior de Letras, que freqüentou pouco tempo. Após uma fracassada tentativa no campo dos negócios, passou, em 1908, a assegurar sua subsistência fazendo correspondência estrangeira, sobretudo inglesa, para casas comerciais. Viveu num círculo muito restrito, fechado ao amor (namorou em 1920 uma datilógrafa) e sem ambições (recusou o convite para ensinar Língua e Literatura Inglesas na Universidade de Coimbra e deixou inédita a quase totalidade de sua gigantesca obra literária). Levou uma existência apagada, buscando a evasão na multiplicidade de suas criações literárias e no abuso do álcool, que lhe causou a cirrose hepática que o vitimou. De 1903 a 1909, compôs poemas em inglês e, em dezembro de 1904, fez sua estréia literária com um ensaio sobre Macauly, publicado na revista da Durban High School. Em 1912, iniciou sua colaboração na revista A Águia, órgão do saudosismo de Teixeira de Pascoaes. É de 1913 seu primeiro poema em português, intitulado "Pauis", que marca o início do modernismo nas letras portuguesas; em 1914, concebeu os heterônimos, sendo os principais Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Em abril de 1915, com Mário de Sá-Carneiro e Luís de Montalvor, lançou a revista Orpheu (da qual só foram editados dois números), que fez vingar o modernismo. Colaborou nas revistas Portugal Futurista (1917), Contemporânea (1922-1926), que dirigiu com José Pacheco, e Atena (1924-1925), de que foi diretor com Rui Vaz. Para concorrer ao Prêmio Antero de Quental, de um órgão oficial, publicou seu único livro de poemas em português, a que deu o nome Mensagem (1934): obteve o prêmio, mas na categoria B, porque o livro não atingiu o número de páginas requerido para a categoria A. Os escritos em prosa constam de ensaios estéticos e literários, textos filosóficos, páginas íntimas e cartas, salientando-se O Livro do Desassossego, atribuído ao semi-heterônimo Bernardo Soares. Sua obra poética, na maioria publicada postumamente, caracteriza-se por um absoluto predomínio da inteligência sobre a atrofia da vontade e do sentimento, inteligência que, para melhor exprimir a sua atitude perante a vida, recorreu à multiplicidade dos heterônimos, sendo estes, de fato, não as múltiplas facetas de um poeta dotado de uma compreensão englobante, mas a expressão de uma totalidade fragmentada sob a roupagem de múltiplos estilos personificados. Figura importantíssima do modernismo literário, ninguém como ele influenciou as gerações posteriores de poetas tanto em Portugal como no Brasil, ao mesmo tempo em que sua obra se afirmava progressivamente como uma das mais importantes da literatura do século XX.

Pessoa era contra o salazarismo e combateu-o

Simpatizante inicial do salazarismo, Fernando Pessoa distancia-se e empenha-se em combatê-lo, estando a expressão literária dessa luta patente num livro a lançar sexta-feira em Coimbra, por iniciativa do docente António Apolinário Lourenço.

«Contra Salazar», publicado pela Angelus Novus Editora, reúne em 146 páginas «tudo o que Fernando Pessoa escreveu contra Salazar», em poema, prosa e em cartas, surgindo agora ao público, quando se evocam os 120 anos do nascimento do poeta e 40 anos após o afastamento do ditador na sequência das sequelas da queda de uma cadeira, que iriam provocar a sua morte.

«A reunião de todos estes textos de Fernando Pessoa permite comprovar a profundidade e a radicalidade da oposição do poeta a António de Oliveira Salazar. Nessa oposição está patente o rancor pessoal, mas também a censura política contra o carácter ditatorial e fascizante do regime«, declarou à agência Lusa o docente da Faculdade de Letras de Coimbra, que este ano publicou também uma edição anotada de »Mensagem«.
Segundo o organizador da colectânea, »o primeiro sinal de distanciamento de Pessoa face ao regime saído do golpe militar de 28 de Maio de 1926 - que o poeta expressamente apoiara num opúsculo de 1928 - aparece em dois textos de 1930, que constituem a sua resposta à constituição da União Nacional«.

A ruptura - acrescenta - acentua-se com a publicação em 4 de Fevereiro de 1935, no Diário de Lisboa, de um artigo de Fernando Pessoa, intitulado »Associações Secretas«, em que o poeta manifesta a sua oposição a um projecto de lei do deputado José Cabral, apresentado na Assembleia Nacional, que visava a proibição da Maçonaria.

Noutros trechos da obra, Pessoa afirma que »o argumento essencial contra uma ditadura é que ela é ditadura«. Num outro reprova o facto de Salazar ter transformado uma ditadura à Primo de Rivera numa ditadura à Mussolini; ou outro ainda em que se queixa de ter sido vítima de um acto de censura.

Estou cansado da inteligência

Estou cansado da inteligência.
Pensar faz mal às emoções.
Uma grande reacção aparece.
Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo
Na casa antiga da quinta velha.
Pára, meu coração!
Sossega, minha esperança fictícia!
Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui…
Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer!
Meu horizonte de quintal e praia!
Meu fim antes do princípio!

Estou cansado da inteligência.
Se ao menos com ela se apercebesse qualquer coisa!
Mas só percebo um cansaço no fundo, como baixam na taça
Aquelas coisas que o vinho tem e amodorram o vinho.



18 - 6 - 1930

cul de lampe

Pouco a pouco,
Sem que qualquer coisa me falte,
Sem que qualquer coisa me sobre,
Sem que qualquer coisa esteja exactamente na mesma posição,
Vou andando parado,
Vou vivendo morrendo,
Vou sendo eu através de uma quantidade de gente sem ser.
Vou sendo tudo menos eu.
Acabei.

Pouco a pouco,
Sem que ninguém me falasse
(Que importa tudo quanto me tem sido dito na vida?)
Sem que ninguém me escutasse
(Que importa quanto disse e me ouviram dizer?)
Sem que ninguém me quisesse
(Que importa o que disse quem me disse que queria?),
Muito bem…
Pouco a pouco,
Sem nada disso,
Sem nada que não seja isso,
Vou parando,
Vou parar,
Acabei

Qual acabei!
Estou farto de sentir e de fingir em pensar,
E não acabei ainda.
Ainda estou a escrever versos.
Ainda estou a escrever.
Ainda estou.

(Não, não vou acabar
Ainda…
Não vou acabar.
Acabei.)

Subitamente, na rua transversal, uma janela no alto e que vulto nela?
E o horror de ter perdido a infância em que ali não estive
E o caminho vagabundo da minha consciência inexequível.

Que mais querem? Acabei.
Nem falta o canário da vizinha, ó manhã de outro tempo,
Nem o som (cheio de cesto) do padeiro na escada
Nem os pregões que não sei já onde estão —
Nem o enterro (ouço as vozes) na rua,
Nem o trovão súbito da madeira das tabuinhas de defronte no ar de verão,
Nem… quanta coisa, quanta alma, quanto irreparável!
Afinal, agora, tudo cocaína…
Meu amor infância!
Meu passado bibe!
Meu repouso pão com manteiga boa à janela!
Basta, que já estou cego para o que vejo!
Arre, acabei!
Basta!

2 - 7 - 1930

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002