sábado, 2 de julho de 2011

Fernando Pessoa escreveu argumentos para filmes

Sob o rótulo “Film Arguments”, Fernando Pessoa deixou escritos e datilografados argumentos cinematográficos em três línguas que só agora serão publicados em Portugal, bem como planos para criar uma produtora de cinema, a Ecce Film, e o respetivo logótipo.

Com edição, introdução e tradução de Patricio Ferrari e Claudia J. Fischer, todos esses textos de Pessoa diretamente relacionados com cinema, inéditos em Portugal, foram pela primeira vez reunidos num volume intitulado “Argumentos para Filmes”, que chega a 08 de julho às livrarias, no âmbito da coleção “Obras de Fernando Pessoa”, coordenada por Jerónimo Pizarro e publicada pela Ática, chancela da Babel.

Aí se podem encontrar seis argumentos cinematográficos incompletos da autoria de Fernando Pessoa, “quase certamente escritos ainda na época do cinema mudo”, indicam os autores da obra no prefácio.

Quatro dos argumentos, “todos datáveis da década de 1920”, foram escritos em inglês – um deles com diálogos em português –, com indicações como “Nota para um ‘thriller’ disparatado. Ou para um filme” ou “Meio plano para peça ou filme.”

Os outros dois, “de data posterior a 1917” e redigidos em francês, já foram publicados, sim, mas apenas em França, em 2007, num pequeno opúsculo da Pléiade, juntamente com a tradução francesa de dois dos argumentos ingleses, e terão agora a respetiva tradução em português.

À Lusa, Claudia J. Fischer, professora e investigadora do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, disse que embora tais argumentos cinematográficos não tenham até agora sido transcritos e traduzidos para português, presume que “já houvesse há algum tempo conhecimento da sua existência no espólio” de Fernando Pessoa (1888-1935).
“É espantoso” que tais textos não tenham ainda sido divulgados em Portugal, tendo em conta o grande número de estudiosos da obra do poeta que já teve acesso à sua famosa arca de papéis, observou a coautora deste livro, acrescentando que “além destes, há ainda outros textos que nunca foram publicados, contrariamente à ideia que existe de que tudo do Fernando Pessoa já está publicado”.

“Provavelmente, nunca foram levados muito a sério, porque são fragmentados, não são muito completos. Nunca chegou, ele próprio, a avançar com uma proposta de publicação, porque não teriam ainda a sua forma definitiva. Penso que será por isso”, sustentou.

O que Claudia J. Fischer e Patricio Ferrari acharam “particularmente fascinante” nestes argumentos ou planos para argumentos de filmes foi o facto de eles refutarem a tese de que Fernando Pessoa não se interessava por cinema, uma tese que até agora vigorava e era defendida em várias obras, incluindo o “Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português”, um volume publicado em 2008, com quase 600 artigos da autoria de 90 especialistas portugueses e estrangeiros, centrado na obra do poeta e nos traços culturais do seu tempo.

Essa tese tinha como fundamento excertos de alguns poemas de Álvaro de Campos, textos e correspondência de Pessoa em que este expressava uma quase aversão à sétima arte e que estão também incluídos neste livro “Argumentos para Filmes”, para melhor se entender o que afinal pensava o poeta sobre o cinema.

Nesses textos, “há várias referências ao cinema, muitas em tom um pouco depreciativo, mas porque está a referir-se ao cinema hollywoodiano, que considerava superficial – ou seja, há realmente um tratamento do tema do cinema, mas de um ponto de vista crítico”, apontou a investigadora.

Porém, como Pessoa “tinha a preocupação de ‘Fazer pela Vida’ – para citar o título do livro que Mega Ferreira escreveu sobre ele, em que ele apresenta vários projetos, patentes de máquinas, etc. –, como tinha a preocupação de rentabilizar algum produto seu, nós pensamos que estes argumentos, especialmente os ingleses, provavelmente tinham o intuito de ser comercializados no mercado anglófono – e não no português – e por isso é que estão em inglês”, referiu.

“São ‘thrillers’, às vezes lembram um bocadinho comédias de costumes, são sempre brincadeiras em torno de trocas de identidade, o que é muito interessante também para uma poética do Pessoa, toda a questão da identidade está muito iminente. São textos fragmentários, curtinhos, mas podem completar imensamente uma imagem do perfil que tem sido construído de Fernando Pessoa”, defendeu.

Outro dos capítulos do livro é dedicado aos projetos do poeta relacionados com o cinema: em 1919/1920, queria criar uma empresa que se chamaria Cosmopolis e, mais tarde, o Grémio de Cultura Portuguesa, “que eram uma espécie de agências de propaganda nacional” – explicou a professora universitária –, cuja ação passaria necessariamente pelo cinema, que Pessoa descreveu, nos seus planos, como “uma das maiores armas de propaganda que se pode imaginar” e que pretendia usar “para divulgar Portugal no mundo”.
E no âmbito destes dois projetos – “que passou muito despercebida” – de criar uma produtora cinematográfica, a Ecce Film, sublinhou.
“O logótipo, completamente inédito, que nós reproduzimos no livro é invenção do Fernando Pessoa, incluindo o aspeto gráfico. Ele ensaiou vários logótipos para esta Ecce Film e imaginou já o papel timbrado e os envelopes com uma morada – que nós desconhecíamos se existia e que fomos procurar”, descreveu.

A morada era ‘Rua de S. Bento, números 333 e 335’ e os dois investigadores descobriram que aí existira um estúdio de cinema que era utilizado por importantes produtoras de filmes da época.
O que se conclui, frisou Claudia J. Fischer, e é essa a grande novidade deste livro, é que “Fernando Pessoa estava a par do que se passava no setor cinematográfico em Lisboa, interessava-se por isso e chegou mesmo a projetar qualquer atividade sua ligada ao cinema, fosse produção ou fosse divulgação”.


terça-feira, 30 de novembro de 2010

Fernando Pessoa morreu há 75 anos

Os 75 anos sobre a morte de Fernando Pessoa vão ser assinalados hoje com a exibição do 'Filme do desassossego', obra de João Botelho inspirada no poeta, que decorrerá no Teatro Nacional São Carlos, em Lisboa.

O filme de João Botelho é uma interpretação para cinema de O livro do desassossego, de Bernardo Soares, um dos heterónimos do escritor.
Fernando António Nogueira Pessoa, um dos maiores poetas de língua portuguesa de sempre, faleceu em 1935, em Lisboa, com 47 anos.
Aos sete anos foi viver com a mãe para Durban, na África do Sul, onde fez os estudos, o que lhe proporcionou dominar a língua inglesa, na qual escreveu três dos quatro livros que publicou em vida. Regressou a Portugal com 17 anos.
Além de tradutor e correspondente comercial, foi empresário, editor, crítico literário, tradutor, jornalista, inventor e publicitário, ao mesmo tempo que produzia a sua obra literária. Mensagem e Livro do Desassossego.
A longa-metragem inspirada na obra do poeta estreou-se no dia 29 de Setembro no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e está a fazer um circuito de exibição pela rede de cineteatros, teatros municipais e nacionais até, pelo menos, Janeiro.
João Botelho decidiu não estrear Filme do desassossego no circuito normal das salas de cinema, por considerar que não se enquadra na lógica do cinema comercial, por querer privilegiar a palavra original de Fernando Pessoa.
Do elenco fazem parte Cláudio Silva, no papel de Bernardo Soares, e mais de quarenta atores em curtas participações, como Rita Blanco, Alexandra Lencastre, Miguel Guilherme, Catarina Wallenstein, Laura Soveral, Margarida Vilanova, Ricardo Aibéo, Manuel João Vieira e Marcelo Urghege.

Nos primeiros dias de exibição, o filme somou mais de três mil espectadores.

Lusa / SOL







Inês Pedrosa lamenta que fascínio por Fernando Pessoa não seja melhor aproveitado

Faz esta terça-feira 75 anos que morreu Fernando Pessoa. Na Última Hora o jornalista Artur Carvalho conversou com Inês Pedrosa, directora da casa que é dele e que lamenta que o fascínio pela obra e pelo homem não seja mais bem aproveitado.


Fernando António Nogueira Pessoa, um dos maiores poetas de Língua Portuguesa de sempre, faleceu em 1935, em Lisboa, com 47 anos.
Aos sete anos foi viver com a mãe para Durban, na África do Sul, onde fez os estudos, o que lhe proporcionou dominar a Língua Inglesa, na qual escreveu três dos quatro livros que publicou em vida. Regressou a Portugal com 17 anos.
Além de tradutor e correspondente comercial, foi empresário, editor, crítico literário, tradutor, jornalista, inventor e publicitário, ao mesmo tempo que produzia a sua obra literária, como por exemplo: «Mensagem» e «Livro do Desassossego».

Obra de Fernando Pessoa ainda é um desassossego

Ana Vitória /JN

Fernando Pessoa morreu há 75 anos, mas a obra continua a suscitar interesse, sobretudo no estrangeiro. Em França, o "Livro do desassossego" já vendeu 185.000 cópias e a palavra "intranquilité" ("desassossego") vai entrar no dicionário da Academia da Língua Francesa.
"Os portugueses cansam-se facilmente de tudo", sintetizou, a propósito do relativo "abandono" a que o escritor tem sido votado, o ensaísta Eduardo Lourenço, em conversa com o JN à margem do II Congresso Internacional Fernando Pessoa realizado na passada semana.

"O caso de Fernando Pessoa é o caso paradigmático de alguém por quem os portugueses dizem sentir grande apreço, mas do qual, no fim, nem sequer se apercebem da dimensão internacional", disse, por seu turno, Inês Pedrosa, directora da Casa Fernando Pessoa, que, desde há dois anos, tem vindo a organizar aqueles encontros pessoanos.

A obra e o pensamento do autor de "Mensagem" - que morreu aos 47 anos - continuam a influenciar artistas contemporâneos de diversas áreas. Daí que não seja estranho que uma obra como "O livro do desassossego", publicada pela primeira vez há 120 anos, continue com honras de "best seller" em países como França, Itália ou Brasil.
A paixão pela obra de Fernando Pessoa assenta em múltiplas e variadas interpretações. Tome-se como exemplo o trabalho do músico, compositor e ensaísta brasileiro José Miguel Wisnik. Defende este investigador que Fernando Pessoa entrou no chamado Tropicalismo e entrou no movimento da Bossa Nova através do professor Agostinho da Silva, que, por sua vez, foi levado para a Bahia pelo próprio Eduardo Lourenço.
Para José Miguel Wisnik, "Fernando Pessoa levou o mito do V Império a uma transfiguração que tinha a ver com um novo futuro, uma ordem mundial futura em que a língua portuguesa voltaria a ser predominante". E o investigador sublinhou ainda o facto de Fernando Pessoa "se ter popularizado no Brasil através da canção, (muitos compositores brasileiros musicaram poemas seus) demonstrando, assim, como a mais "alta" cultura se misturou com a cultura "popular", a enriqueceu e criou a especificidade da cultura brasileira".
"Esta é uma visão curiosa que acaba por ser muito estimulante para as pessoas que têm aquele medo de entrar num mundo que é aparentemente de chave fechada", defendeu Inês Pedrosa.

"Pessoa congrega pessoas muito diferentes, às vezes, até com posturas antagónicas. É engraçado como, sendo ele tão tímido e ensimesmado, suscita paixões tão ardentes de compreensão exclusiva e suscita heterónimos tão vivos e diferentes quanto os que ele criou", sublinhou.

O fascínio tem uma explicação. Pessoa não foi só poeta ou escritor de prosa, foi também ensaísta político e teórico sobre religião e estética filosófica. Um debate em torno de Pessoa acaba, assim, por ser um debate em torno do século XX em Portugal e não só.
"Pessoa foi o sonhador de todos os sonhos, mesmo os mais improváveis", lembrou Eduardo Lourenço, que, no âmbito do congresso, foi distinguido, conjuntamente com a especialsita em assuntos pessoanos Maria Aliete Galhoz, com a "Ordem do desassossego".

A distinção, criada pela Casa Fernando Pessoa, visa "honrar aqueles que honram Pessoa e honram Portugal, sabem amá-lo e têm uma atitude de desprendimento e de curiosidade genuína como a que caracterizou Pessoa".
O filósofo, de 87 anos,sublinhou a importância da obra do poeta dos heterónimos, que definiu como "o grande poeta da incondição humana", e recordou que foi em 1942/43 que o encontrou, comentando: "Encontrarmos alguém que já nos viveu é qualquer coisa de paradoxal."

Ode Marítima part 2/5

A Cena do Ódio

ode marítima - Álvaro de Campos

Audiolivro.pt apresenta a "Mensagem" de Fernando Pessoa

ODE MARITIMA (Limpos, Regulares, Modernos)

ODE MARITIMA (Parte-se em mim qualquer coisa) Alvaro de Campos (Fernando...